O Kata e a Não-Representação

Bu no Mai – Dança de Okinawa

Havia um famoso ator de kabuqui, que morreu há cerca de 50 anos, que dizia ‘Posso ensinar-lhe o padrão gestual que indica olhar para a lua. Posso ensinar-lhe como fazer o movimento da ponta do dedo que mostra a lua no céu. Mas, da ponta do seu dedo até a lua, a responsabilidade é inteiramente sua’.” (OIDA, p. 158).

Primeiramente, antes de mergulharmos na provocação que este artigo propõe, precisamos investigar minimamente o que significa representação. Aqui, iremos optar pelo olhar artístico sobre esse conceito que não é encerrado, reduzido e cristalizado. Colocaremos nossos pés nas margens de um oceano repleto de subjetividades e de interpretações.

De forma simplificada, representação é algo que pretende ser o que não é. Uma farsa, uma mentira, talvez, se formos mais rigorosos. Como estamos no campo da arte, poderíamos trazer exemplos por meio da literatura, do teatro, das artes plásticas, etc. Mas optemos pela fotografia. Podemos ver um retrato e pensar que sua função é apenas apresentar o objeto, no caso, uma figura humana, que nele foi impresso (atualmente, digitalizado). Se a foto está apenas fadada a ser a pessoa fotografada, a dizer “esta aqui é a fulana”, então temos algo representado.

Uma fotografia é um encontro singular, único. Nela, convergem não apenas o objeto diante da lente, mas a luz que nele incide, os recursos da ferramenta (câmera fotográfica), o olhar do fotógrafo, dentre outros. O resultado, a foto, ganha um significado próprio e pleno, o que não significa que esteja encerrado em si. Ele estabelece diálogos e revela sobre a pessoa fotografada, sobre a ferramenta utilizada, sobre o fotógrafo e sobre a luz no instante do clique.

Havia, contudo, nos primórdios da fotografia, o hábito de se procurar estúdios para tirar retrados. Nesses locais, existiam cenários e refletores que permitiam reproduzir certos ambientes, como uma praia paradisíaca, por exemplo. O objetivo do fotógrafo e, principalmente, da pessoa que contratou o seu serviço não era o de investigar e revelar um instante, mas o de criar uma idealização. Busca-se criar um produto que possa vender a suposição de uma grande felicidade, de um sucesso, de um bon-vivant. Venda essa, provavelmente, destinada aos olhos de terceiros.

Entretanto, havia nesse retrado montado a alegria, o sucesso, o bon-vivant? Nesse caso, podemos dizer que a foto resultante é uma representação. E não pense que a responsabilidade seja do estúdio, do cenário ou dos refletores. É possível suspeitar que, nos tempos atuais, as fotografias representadas estejam nos facebooks e nos instagrams, com sorrisos em meio a viagens e pratos de restaurante. Sim, a Torre Eiffel é verdadeira. Sim, o risoto é comestível. Mas e o sorriso? Independentemente de como se dá, o representado mais esconde do que revela.

Transfiramos, agora, nossa atenção para o elemento em análise. Um dos principais pilares do treino de karatê, senão, o principal, o kata é uma sequência de movimentos que visam apresentar e habituar o corpo à natureza da defesa pessoal. À primeira vista, é difícil relacionar essa prática com o conceito de representação, no entanto, veremos que, com frequência, ambos caminham juntos. Antes, porém, devemos nos adiantar em atender a uma possível colocação: como comparar algo com função prática, como a arte marcial, com arte e suas qualidades lúdicas?

Uma resposta mais profunda sobre essa questão nos levaria para outro território no qual se discutiria, principalmente, o que é arte. Por agora, se propor a tal mergulho nos afastaria do nosso foco. Fiquemos apenas com esse estranhamento da palavra arte estar em matrimônio com a palavra marcial quando nos referimos não somente ao karatê, mas também ao judô, taekwondo, jiu jutsu, capoeira, MMA, etc.

Ao menos, podemos dar um alento aos seguidores da funcionalidade, pois, é possível que, por meio da reflexão aqui proposta, se elucidem métodos para a melhora da experiência marcial. Ainda assim, devemos partir de uma premissa: nenhuma prática, nenhum treino de nenhum estilo pode oferecer a real vivência da autodefesa. Esta apenas ocorre em circunstâncias reais, nas quais a necessidade é impositiva e não opcional. Mesmo práticas de treinamentos com mais contato físico, como no shiai kumite (dentro do universo do karatê), no boxe e no MMA, com suas regras e modos de conduta, não são a reprodução do ato caótico da luta pela real sobrevivência em um combate corpo a corpo. Pelo contrário, crer que qualquer método de treino é uma reprodução absolutamente fidedigna não passaria, justamente, de uma representação.

Se a experiência da arte marcial não nos permite a vivência real do combate corpo a corpo pela sobrevivência, resta a esta estabelecer uma aproximação íntima, um diálogo com a circunstância da autodefesa. E é, justamente, esse o objetivo do kata. Contudo, para a intimidade ser estabelecida no seu campo mais profundo é necessário arrancar qualquer possibilidade de representação. Caso contrário, sua ação não passará de um ato teórico separado da prática.

Enfim, investiguemos as armadilhas da representação no kata. Simplificando, podemos descrever duas situações em que isso ocorre. A primeira é a mera reprodução mecânica da sequência de movimentos. Isso pode levar a um resultado organizado, até mesmo agradável ao olhar, se executado com cuidado. O suposto “correto”. Porém, o corpo perde a oportunidade de uma experiência consistente.

Temos que ter em mente que cada ação existente na partitura do kata possui um objetivo, uma urgência, um ato de vida ou morte. É por meio desse estado que se estabelece o diálogo com a real circunstância da autodefesa. Um jogo do se: “e se eu estou me defendendo realmente de um agressor?”. Cria-se, assim, uma vivência que ultrapassa nossas faculdades friamente controladas e nos impõe o desafio de um corpo pleno, uniforme, completamente entregue a uma ação extraordinária. Abrir mão disso é não vivenciar a prática, mesmo que o resultado esteja adequado, e cair na representação.

O outro exemplo que pode ser descrito ou, talvez, até um desdobramento do primeiro, é a busca de um virtuosismo. É possível, nesse caso, que a performance de um kata esteja completamente dedicada à aprovação de um olhar espectador. Investe-se em movimentos chamativos, em precisão simétrica. Deseja-se a plasticidade do suposto belo segundo um padrão de qualidade e se imprime, na face, a expressão idealizada do guerreiro. O surpreendente é que a entrega à ação dentro dessa qualidade pode ser tão intensa que o corpo experimenta, de fato, um acontecimento, colocando em cheque a questão da representação. Contudo, para além de se a prática foi representada ou não, a vivência marcial provavelmente foi ignorada, perdendo, assim, sua finalidade primordial.

Afinal, como movimentos calcados em verbos como arrebentar, quebrar, perfurar e romper podem ser simetricamente perfeitos e organizados? E, por incrível que pareça, eles podem ser, caso sejam consequência de uma vivência vetorizada pelo seu objetivo principal. O que não pode acontecer é essas qualidades se tornarem a finalidade, o que desmantela a natureza do kata como pesquisa da autodefesa.

Temos que ter em mente que, para além de obedecer à partitura proposta, não existe um jeito certo de realizar a prática, uma forma correta. O que existe são diálogos entre um corpo desejoso singular, um padrão de movimentos, um jogo de autodefesa e um momento. Dessa forma, nunca poderemos repetir igualmente um kata, ele sempre será uma vivência única, transitória. Algo pleno e revelador. Um acontecimento marcial e artístico.

Samuel MacDowell – Instrutor Meibukan

Referência bibliográfica:

OIDA, Yoshi. O Ator Invisível. São Paulo : Via Lattera, 2007

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