O treino em Okinawa.

Sentado na área comum do hostel conversando com um canadense, uma chinesa e uma japonesa. Um japonês mais velho começa a falar com outro na casa dos 50 anos sobre como ele não gosta de estrangeiros, num discurso racista e nacionalista. O seu ouvinte tenta se afastar e sinaliza que é para ignorar o mais velho e que ele não concorda, a japonesa mais nova se vira e fala – Não gosto do que ele esta falando, não gosto de racistas!

Ninguém gosta de racistas e xenofóbicos ou conservadores de qualquer espécie, só eles gostam deles mesmos. Jovens de várias nacionalidades conversando em japonês, chinês e inglês, cada um traduzindo para o outro o que o outro disse. E um senhor sozinho e sem ninguém tentando contato humano ao xingar outras pessoas, péssima estratégia. Ficou sozinho de novo. Uma última tentativa de contato humano desesperado, tentou nos ofender, não recebeu resposta. Sozinho e derrotado, teve que sair sem conseguir seu contato humano.

Engraçado que certos Karatekas no Brasil e no ocidente como um todo adoram falar em “tradição”, em “verdadeiro Karate”, em “Bushido”, reproduzem o mesmo nacionalismo e discurso conservador do senhor acima. Se o nacionalismo, conservadorismo, “Bushido” e “tradição” tivessem sido aplicados pelos Senseis do Karate, tais ocidentais sequer teriam aprendido o Karate. Que ironia, não? Os gaijins bárbaros jamais iriam aprender a arte que eles dizem tanto amar. E mais, se não fosse pela mente aberta de certos Senseis de Okinawa, o Karate sequer teria sobrevivido até hoje e teria sido eliminado da cultura japonesa assim como a língua de Okinawa está sendo eliminada. E falar em tradição me soa mais estranho ainda quando vindo de Dojos voltados totalmente para a competição. E não existe problema nenhum nisso, tem espaço para todos no mundo, ao contrário do que certos uns tentam dizer. Mas ou é esportivo ou é “tradicional”, os dois é que não dá pra ser. Ou, mais engraçado ainda, quando falam que seu Karate é o único que preserva a “tradição” e o “verdadeiro Karate” e nunca treinaram com um sensei japonês na vida. E, novamente, nenhum problema nisso, existem ótimos Karatekas que nunca tiveram acesso a um Sensei do Japão, mas creio que esse discurso da “tradição” já passou do seu tempo há muito. E, pra finalizar, o “Bushido” samurai não tem absolutamente nada a ver com o Karate. Se o Bushido fosse aplicado, nenhum grande Sensei da ilha principal do Japão jamais teria treinado Karate e o mundo seria privado não só de Gogen Yamaguchi, Hirokazu Kanazawa, Teruo Hayashi e Fumio Demura, só pra dar alguns exemplos, como não existiram estilos como o Wado-ryu, Shito-ryu, Shotokan e Kyokushin, só para citar alguns. E mais, provavelmente o mundo nem teria sequer conhecido o Karate.

 

*

 

Acordar. Café da manhã. Caminhar quatro quilômetros até o Karate Kaikan. Treino da manhã. O salão em piso de madeira com espelhos, material de Hojo Undo, armas do Kobudo e Makiwara. Ocasionalmente compartilhar a sala com algum Sensei oitavo dan de Okinawa. Aquele olhar lateral para o gaijin treinando e umas balançadas de cabeça de aprovação às vezes. Comprimento ao sair e a sala é só minha mais uma vez. R$4 para usar a sala por tempo indeterminado. Eu uso até a exaustão. Limpar a sala toda depois de usar, apagar as luzes e sair com um comprimento. Vestiário com armários gratuitos e chuveiros que funcionam a moedas. Enquanto treino, um décimo Dan ora do Shorin-ryu ora da Goju-ryu está dando aula no grande salão. Quatro quilômetros de volta carregando um par de sai e o Karategi pesando mais um quilo de puro suor. Almoço rápido e caminhar mais alguns quilômetros visitando tudo que é possível em Okinawa. Fim da tarde, toca o sino dos colégios, hora de colocar o Karategi nas costas e rumar para o Dojo. Chegar 15 minutos antes. Trocar-me e limpar o Dojo. Enquanto termino, chegam as crianças.

-Konbanwa!

Alinhar para o comprimento. Sempre me coloco no último lugar da fila, sou um convidado no Dojo.

-Onegaishimasu!

E é a minha hora de dar aula para as crianças. Sim, um estrangeiro dando aula de Karate em Okinawa. Isso já me aconteceu quando morei em Quioto na ilha principal do Japão. Lá já me foi pedido por um 5º Dan que lhe ensinasse Kata. E não falo isso por ser grande coisa. Pelo contrário, é algo normal. Enquanto no Brasil só recebo desprezo e um olhar torto de certos graduados e senseis devido a minha graduação, no Japão e em Okinawa recebo reconhecimento, sem nunca, nem uma vez, terem sequer perguntado qual era o meu Dan. E creio que esse reconhecimento é o único que importe.

-Edo-san, por favor, mostre-me, quero aprender seu modo de dar aulas para as crianças. Elas acham muito interessante. (Me pede o Sensei responsável do dia pela aula das crianças).

Edo-san é como sou chamado, ou Edo-senpai pelas crianças. Os adultos também se juntam às aulas e tentam reproduzir as técnicas junto das crianças, rindo junto e falando um ocasional:

– Sugoi! Ou um: – Muzukashi! (incrível, difícil).

Fim do treino. Já exausto percebo que só acabou a aula das crianças. Mais duas horas de treino me esperam.

Sanchin Kata. Sanchin Shime, o teste que é feito enquanto executamos o Kata. O sensei, 10º Dan, executa o teste, mãos pesadas, os ombros, musculatura das costas e pernas são alvos. Segue-se Katas e Bunkais. Todos os detalhes de cada movimento. Preservar a execução perfeita de cada movimento. É como receber aula direta dos fundadores do Karate. E é, na verdade, uma ou duas gerações se passaram desde a fundação dos estilos. O chão do Dojo quebrado em vários pontos. Com muito orgulho eles mostram a técnica que rompeu o chão com seus pés e os pés de seus pais e avós. Cada movimento tem um significado, nada foi colocado no Kata que não tenha sentido. Treino e mais treino, no limite da exaustão, milhares de detalhes. Espirito de iniciante, ouvir cada instrução e fazer o corpo responder. Se não estiver disposto a aprender não venha para Okinawa. Se seu xícara já está cheia, como dizia Bruce Lee, então não tem nada para aprender em Okinawa. Nada é escondido, aprendo muitos Katas. Muitos bunkais. Karate e Kobudo são uma só coisa aqui em Okinawa. Estilos nem sempre são importantes por aqui. Ensinar é o que eles querem, preservar e manter vivo o Karate que eles aprenderam. Mas é preciso respeito e espirito de aprendizagem. Tive contato com alguns estrangeiros, sem respeito, foram ignorados, sentar a aula inteira e ir embora sem um convite para voltar. Porque? Já foram lá sabendo. Cabeça erguida, tentando mostrar que já sabiam alguma coisa, que já eram graduados. Então não tem nada para aprender lá. Um comentou, “Dojo pequeno”, lhe foi recomendado ir treinar no Karate Kaikan. Lá é bem grande de fato.

Nos treinos uma costela quebrada. Japoneses tem uma atração pela minha costela. Já fraturei a mesma várias vezes. Dormir é desagradável. Fazer Sanchin e Tensho uma tortura. Executar os Katas como se estivesse 100% é um desafio extra. Mas treinar é isso. Superar-se. Falhar miseravelmente muitas vezes para chegar no outro nível. Sem falha, sem aprendizagem. Sem aprendizagem, sem mudança. Se nada muda e tudo se conserva, estagnação. Estagnação é o fim de tudo.

Estive em uma aula com um 10º Dan de outro estilo, treinou diretamente com o fundador de seu estilo. Fim da aula. Hora de cumprimentar o Sensei. Ele se negou. Diz ele: – Otogai ni, Rei! (algo como “todos se cumprimentem”). Saiu do Dojo como se fosse só mais uma aula e se mostrou surpreso quando pediram para tirar uma foto com ele.

Nem uma vez foi perguntado qual o meu Dan, nenhuma vez alguém falou qual era seu Dan.

Dia seguinte tudo de novo. Todo dia.

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