Uma Nova Origem dos Katas Goju-ryu

Sensei Chojun Miyagi

Este artigo é produto de uma vida adulta inteira dedicada ao treino e a pesquisa das artes de auto-defesa de Okinawa, o Karate e o Kobudo. Treinei com mutios professores de diversos estilos e escolas de Karate japonês e de Okinawa. Viajei por muitos anos por diversos estados e cidades do Brasil para aprender Katas. Vivi e viajei pelas ilhas principais do Japão e por Okinawa. Tudo isso resulta no conhecimento que irei tentar transpor ao papel neste texto. Esta tese é totalmente minha e jamais vi algo parecido com aquilo que irei dizer em lugar algum. E longe de desligitimar o estilo Goju-ryu e seu criador, Chojun Miyagi Sensei, acredito que engrandece a sua figura e demonstra o quanto o estilo Goju-ryu é original e ao mesmo tempo tão clássico, sem precisar de mistificações sobre origens lendárias e “milenares” dos Katas treinados. Não a toa o estilo Goju-ryu foi um dos primeiros estilos a serem reconhecidos nas ilhas principais do Japão pela Dai Nippon Butokukai, entidade de pesquisa e preservação das artes marciais clássicas japonesas, e também a ser o único estilo a ser reconhecido como Kobujutsu e não como Gendai-Budo pela mesma instituição. Ou seja, o estilo Goju-ryu é o único estilo de Karate a ser reconhecido como uma arte de auto-defesa antiga e não como uma arte de auto-defesa moderna nos moldes esportivos.

A história contada comumente em livros e em sites da internet e mesmo pela tradição oral é de que Chojun Miyagi Sensei aprendeu 9 dos Katas presentes no seu estilo, o Goju-ryu, de seu Sensei Kanryo Higashionna e esse por sua vez os aprendeu na China, na região de Fujian, com seu Sensei RyuRyuKo. A lista destes Katas seriam Sanchin, Sanseru, Seisan, Shisochin, Saifa, Kururunfa, Suparinpei, Seienchin e Sepai.

É dito abertamente que são criações de Miyagi Sensei os Katas Gekisai Ichi e Gekisai Ni e também o Kata Tensho. É de conhecimento público que o Kata Gekisai Ichi foi uma criação em conjunto de Miyagi Sensei com Shoshin Nagamine Sensei, o fundador do Shorin-ryu Matsubayashi. Originalmente dois Katas foram criados, o Fukyugata Ichi e o Fukyugata Ni. Os dois Katas continuam sendo praticados com os mesmos nomes em diversos grupos de Shorin-ryu, tanto o Matsubayashi quanto o Kobayashi. Estes Katas foram criados com o intuito de serem “formas universais” praticadas por todos os estudantes de Karate, independente de estilos, como exercicios preliminares antes do ensino dos Katas “clássicos” das escolas. Isso já havia sido feito por Anko Itosu quando criou a série Heian (abordei o assunto no artigo “O criador de Katas”) logo essa ideia não era nova, mas nova foi a tentativa de juntar dois dos mais representativos estilos do Okinawa Karate, o Goju-ryu (Nahate) e o Matsubayashi Shorin-ryu (Shurite/Tomarite), e criar Katas que seriam comuns a ambos. O Kata Fukyugata Ichi acabou sendo uma versão mais simplicada do Pinan e não foi adotada por Chojun Miyagi Sensei, talvez pelo seu “sabor” demasiado Shurite/Tomarite, que deve ter sido um fator desisivo na não adoção deste Kata uma vez que a biomecânica corporal do Karate influenciada pelo Shurite/Tomarite é bem diferente daquela que influenciou o Nahate. Vejamos por exemplo o Kata Fukyugata Ni, que acabou transformando-se no Gekisai Ichi. Este Kata é o único Kata Goju-ryu que apresenta a defesa Jodan-uke, tão importante nas diversas escolas de Shorin-ryu com orientação Shurite/Tomarite. Essa defesa não é encontrada na Goju-ryu e nem na Uechi-ryu, dois estilos oriundos do estilo da Garça-Branca (Bai he Quan) de Fujian, China. Essa defesa só é encontrada no Gekisai/Fukyugata e é muito provavelmente uma concessão de Miyagi Sensei para tentar criar um Kata que fosse comum a todos os Karates de Okinawa. Embora o Kata Fukyugata Ichi não tenha sido adotado por Miyagi Sensei e este tenha renomeado o Kata Fukyugata Ni para Gekisai Ichi e criado uma segunda forma chamada Gekisai Ni, é de conhecimento público que Eiichi Miyazato Sensei continuou ensinando o Fukyugata na sua escola Jundokan pelo menos até o final dos anos 60 e dois dos seus mais notáveis alunos, Morio Higaonna Sensei e Teruo Chinen Sensei, continuaram ensinando estes Katas para seus alunos no estrangeiro pelo menos até o final dos anos 70, até que este Kata foi completamente abandonado na Jundokan, na IOGKF e na Jundokan Internacional, as respectivas organizações dos três Senseis citados. Outras escolas Goju-ryu, como a Jinbukan de Kanei Katsuyoshi Sensei, a Kenshikai de Tetsuhiro Hokama Sensei e a Shoreikan de Seikichi Toguchi Sensei continuaram praticando Katas com a denominação Fukyugata Ichi e Ni. Apenas a título de curiosidade, o Dai Sensei Meitoku Yagi, fundador da Meibukan, criou nos anos 70 dois Katas chamados Fukyugata Ichi e Fukyugata Ni, que mais tarde foram fusionados e se transformaram no primeiro Meibuken Kata, chamado Tenchi, mas que nada tinham a ver com os Fukyugatas mencionados acima, a não ser a ideia de criar um Kata mais simples que pudesse ser ensinado como porta de entrada ao estilo Goju-ryu.

O terceiro Kata que é de conhecimento público ser uma criação de Chojun Miyagi Sensei é o Kata Tensho. Este Kata foi criado, segundo as lembranças do filho de Kenwa Mabuni Sensei, durante uma tarde em uma conversa entre os senseis Kenwa Mabuni e Chojun Miyagi. Ao ser perguntado sobre o Kata Sanchin ser a representação do aspecto Go do estilo, estes dois Senseis perceberam que era necessário um Kata que expressasse o aspecto Ju, ou seja, o aspecto suave. O filho de sensei Mabuni então diz que Miyagi Sensei começou a executar movimentos do estilo da Garça-Branca (Bai He Quan) e, no tempo de uma tarde, criou o Kata Tensho enquanto discutia sobre este Kata com Mabuni Sensei. Citar isto neste ponto é importantíssimo para a tese deste artigo, pois o intercâmbio entre Miyagi Sensei e Mabuni Sensei foi o que possibilitou a criação da maior parte de todos os Katas presentes no Goju-ryu. Existem registros que Mabuni Sensei, pelo menos durante a década de 30, se dizia um praticante do estilo Goju-ryu, e isto fica muito claro na adoção de todos os Katas Goju-ryu no seu próprio estilo, o Shito-ryu. Embora esta adoção seja normalmente creditada ao fato de Mabuni Sensei ter treinado com Kanryo Higaonna Sensei, dada minha tese atual credito isto muito mais ao treino e à amizade que este cultivou com Miyagi Sensei.

Qual seria então a tese deste artigo? Seria a ideia de que em sua maioria os Katas do estilo Goju-ryu foram todos criações do Sensei Chojun Miyagi. Ou seja, dos doze Katas classicamente ensinados nas diversas escolas do estilo Goju-ryu, nove destes foram criados e desenvolvidos por Miyagi Sensei, tendo os restantes três Katas também sofrido grandes mudanças, porém mantendo a essência do que foi ensinado por Kanryo Higaonna.

Os Katas Goju-ryu

Ryukyu Tode-jutsu Kenkyukai

Dos nove Katas Goju-ryu restantes tenho a total convicção que seis destes são criações de Sensei Chojun Miyagi. Os Katas em questão são Saifa, Shisochin, Seienchin, Sepai, Kururunfa e Suparinpei, sendo os outros três, Sanchin, Seisan e Sanseru, os únicos Katas aprendidos com Kanryo Higaonna, os quais são “a espinha dorsal” do estilo, embora mesmo esses tenham passado por alterações como aponterei posteriormente. Mas como cheguei a esta conclusão? Pela análise histórica e institucional da gênese e criação do estilo Goju-ryu e pela análise dos Bunkais de cada Kata e as diferenças entre as diversas escolas, além é claro da análise de outros estilos.

Um dos pontos em que me apoio para manter esta tese é algo pouco ou nunca notado em relação ao estilo Goju-ryu. Trata-se do movimento de abertura em todos os Katas (com exceção do Sepai), que se inicia com a perna direita. Nos estilos de orientação Shurite/Tomarite, como os diversos estilos Shorin-ryu, Shotokan, Wado-ryu, entre outros, o mais comum é que todos os movimentos de abertura do Kata se iniciem com a perna esquerda. Nos estilos com uma orientação mais Nahate, como o Ryuei-ryu e o Uechi-ryu, alguns Katas se iniciam com a perna direita e outros com a perna esquerda, não seguindo um padrão fixo. Fica claro para mim que a escolha pelo uso da perna direita nos Katas Goju-ryu foi uma escolha consciente de Miyagi Sensei. Isto fica evidente ao sabermos por meio de antigos praticantes do Uechi-ryu que antigamente o pé que iniciava o Kata era indiferente. Ficava à escolha do praticante no momento da execussão com qual pé ele iria iniciar a execussão do Kata. Foi só depois de um tempo que o Sensei Kanbun Uechi precisou padronizar com que pé iniciaría-se cada Kata. Mas o que Sensei Uechi não fez foi padronizar um único lado de iniciação em todos os Katas. Então, nos oito Katas Uechi-ryu, cada um deles se inicia com uma perna diferente. No estilo Ryuei-ryu o mesmo fenômeno ocorre. Por exemplo, o Kata Sanseru inicia-se com a perna direita, mas o Kata Seisan inicia-se com a perna esquerda. Já no estilo Uechi-ryu tanto Sanseru quanto Seisan inicíam-se com a perna esquerda, sendo o Sanchin o Kata que inicía-se com a perna direita. Durante algum tempo cultivei a ideia de que essa escolha pelo uso do lado direito se dava somente por uma superstição de Miyagi Sensei, talvez até com alguma conotação advinda do Budismo ou do Taoísmo, mas depois com tempo e estudo percebi que talvez, na verdade, isso tenha se dado por uma influência direta das formas originais chinesas e pelos Katas ensinados pelos Senseis Arakaki e Go Kenki. Os Katas de Arakaki, por exemplo, todos iniciam-se com o mesmo padrão adotado depois pelo Sensei Miyagi em quase todos os seus Katas. Refiro-me aqui à abertura com a perna direita e aos três passos seguidos de uma mesma técnica de defesa e contra-ataque. Este padrão pode ser visto nos Katas Sochin e Unshu. Já do lado de Miyagi Sensei podemos citar Saifa, Shisochin e Sanseru. Já um terceiro Kata de Arakaki, Niseishi, não apresenta essa abertura em três passos, mas inicía-se com o recuo da perna direita. Isto será depois observado no Kata Kururunfa, de Miyagi Sensei. Esta tendência ao uso da perna direita na abertura dos Katas também é encontrada nos Katas de Go Kenki, com uma orientação muito mais chinesa e próxima ao estilo da Garça-Branca, que deu origem ao Goju-ryu. Estes Katas são Paiho/Hakutsuru, Nipaipo/Nepai. A influência desses últimos Katas citados pode ser percebida no Kata Tensho, e o Kata Nipaipo talvez tenha alguma influência no Kata Sepai, como tratarei mais tarde.

A ideia de Chojun Miyagi Sensei ser o criador dos Katas de seu estilo não nos soarão tão estranhas se levarmos em consideração certos pontos. Primeiro: o Karate estava sofrendo uma padronização geral para poder sobreviver e ser aceito nas Ilhas Principais do Japão como uma arte marcial válida japonesa e poder figurar ao lado dos clássicos estilos marciais japoneses, os Koryu, e ao lado das arte marciais modernas, tais como o Kendo, o Judo e o Aikido. Podemos dizer que para que as artes de auto-defesa de Okinawa, o Karate e o Kobudo, pudessem sobreviver, estes tiveram que ser reinventados. O próprio nome Karate, significando “mãos vazias”, foi cunhado de comum acordo entre diversos senseis de Okinawa; a separação entre o Karate e o uso das armas numa arte separada conhecida como Okinawa Kobudo; a adoção do uniforme e do sistema de graduações utilizados no Judo; e, talvez um dos mais importantes fatores muitas vezes negligenciado, a própria criação e nomeação dos estilos. A prática de nomear estilos e utilização do sufixo “-ryu” era uma prática das ilhas principais do Japão e nunca fez parte do costume de Okinawa. Lembremos que talvez um dos mais famosos Senseis de Okinawa no exterior, Gichin Funakosi, era contrário à adoção de estilos de Karate e pretendia que o Karate fosse uma arte aos moldes do Judo que, por sua vez, foi originalmente uma tentativa de Jigoro Kano de tentar unir todas as escolas de Jujutsu japonês em um só esporte. Tal projeto também foi tentado com a criação do Kendo. Lembro aqui novamente que Chojun Miyagi Sensei foi um dos pioneiros na adoção de um nome específico de estilo para as técnicas que ele ensinava e também um dos primeiros a adotar o uso do Karategi e da faixa preta. Junto com Mabuni Sensei e Funakoshi Sensei, Miyagi Sensei é um dos responsáveis pela fundação, preservação e propagação do Karate de Okinawa. Um outro fato já mencionado em meu artigo sobre Anko Itosu foi que, depois dele, a criação de Katas deixou de ser algo estranho aos Senseis de Okinawa. Praticamente todos os Senseis de Okinawa passaram a criar seus próprios Katas, modificar Katas aprendidos e adicionar um grande número de Katas ầs suas escolas. Digo isto pois a tradição anterior era a de se aprender e ensinar um número máximo de três ou quatro Katas.

Para terminar esta parte, trago para corroborar o que estou dizendo dois estilos que em muitos aspectos são parentes diretos do estilo Goju-ryu: os já mencionados Ryuei-ryu e Uechi-ryu. Como disse, o estilo Uechi-ryu possui apenas oito Katas em seu currículo, mas apenas três destes foram aprendidos por Kanbun Uechi de seu Sensei, Shu Shiwa (Zhou Zihi). Os outros cinco Katas são criações de Kanbun Uechi Sensei e de seus alunos. Assim como no estilo Goju-ryu, os três Katas que formam a espinha dorsal original do estilo Uechi-ryu são os Katas Sanchin, Seisan e Sanseru. O segundo estilo mencionado, o Ryuei-ryu, também apresenta, segundo meus estudos, a criação de Katas contemporâneos, sendo muito provável que os Katas originais aprendidos pela família Nakaima sejam apenas os Katas Niseishi e Paiho, de GoKenki, e os Katas Seisan e Sanseru, de RyuRyuKo, sendo os demais Katas desse estilo provavelmente de desenvolvimento e criação da família Nakaima. E, por último, não poderia deixar de citar Kenwa Mabuni Sensei e seu estilo, o Shito-ryu. Sensei Mabuni assim como seu Sensei, Anko Itosu, foi um grande criador de Katas. Podemos citar rapidamente Seiryu, Mioyo e Juroku como sendo Katas criados por ele. Como disse anteriormente e como analisarei na continuação deste artigo, a troca entre Mabuni Sensei e Miyagi Sensei foi essencial para a criação dos diversos Katas do estilo Goju-ryu.

Finalizo esta parte do artigo trazendo um pouco mais para próximo de nós a dinâmica que levou muitos historiadores a tentarem criar uma conexão maior entre a origem dos Katas de cada estilo e a China. Imagine que para nós ocidentais a legitimação de aprender um Kata com um Sensei japonês é muito maior do que, por exemplo, aprender o mesmo Kata com um Sensei ocidental. Uma legitimação maior ainda se dá para aqueles ocidentais que empreenderam uma grande, dispendiosa e cansativa viagem ao Japão e/ou à Okinawa para aprender o Karate e seus Katas direto de sua fonte. Este mesmo tipo de legitimação também atinge aos japoneses e okinawenses (uchinanchus). Da mesma forma que fazemos viagens ao Japão, estes fizeram viagens à China. Tenho uma outra visão da questão de se é necessário legitimar os estilos baseados na antiguidade e nas origens ancestrais na China. Acredito que o Karate de Okinawa tenha uma grande legitimidade por ter sido criado e desenvolvido pela própria cultura de Okinawa, e que embora tenha claramente influências das artes de combate chinesas, este se tornou uma arte própria e uma síntese de uma cultura própria com influências de outras áreas como, por exemplo, das danças de Okinawa, do Eisa (tambores de Okinawa), do Shima (sumô de Okinawa), entre outras expressões culturais de tais Ilhas. Por isso tudo exposto, absolutamente não vejo problema em dizer que Chojun Miyagi Sensei criou os Katas do estilo de Karate que fundou, ajudando assim na preservação e desenvolvimento do Karate como um todo e possibilitando que esta arte alcançasse tantos países pelo mundo e alcançasse as milhares de pessoas que o treinam todos os dias.

Eduardo Spengler

A seguir, na continuação do artigo, uma análise mais detalhada de cada Kata do estilo Goju-ryu.

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